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Oração

Um crente faz as suas orações com o Dalai Lama durante o oitavo dia das Celebrações Kalachakra Festival.
(Diptendu Dutta/AFP/Getty Images)

Despertar

Praticantes Budistas ouvem o Dalai Lama no local onde se crê que o Buda atingiu o Despertar. (Altaf Qadri/Associated Press) #

Oração – A Banda Mais Bonita da Cidade

O valor do retiro em solidão (2/2)

Chegamos a um ponto em que as pessoas já conseguem ver o valor de praticarem em grupo, mas ainda é difícil verem o valor de estarem em solidão.

Há qualquer coisa de muito poderoso no facto de se meditar em grupo – descobrindo uma comunidade e uma disciplina que as pessoas podem não ter individualmente. Num retiro em grupo, o contexto é fornecido, um enquadramento de disciplina rodeia-nos e somos capazes de praticar de uma forma sustentada que poderiamos pensar ser impossível de outra forma. Começamos a ver muitos dos nossos padrões habituais nos relacionamentos com os outros e começamos a descobrir novas formas de nos relacionarmos. Aprendemos por exemplo a estar com os outros em silêncio. Isto é uma descoberta enorme para algumas pessoas. Portanto existem enormes benefícios no facto de se praticar em conjunto, especialmente para as pessoas que estão numa fase mais inicial da sua prática.

Mas algo acontece num retiro em solidão que não pode acontecer numa situação de grupo, e certamente não acontece durante a prática individual em casa. O vermos por nós próprios que dentro de cada um de nós, está a nossa natureza de Buda. E o que é esta natureza de Buda? É uma mente que é aberta e completamente livre. É vazia. E permite o desenvolvimento de um cuidado e compaixão pelas outras pessoas. Como uma doutrina, isto pode ser explicado de forma muito clara, mas é outra coisa – e muito chocante – descobrir isto mesmo a partir de dentro de cada um de nós. Aquilo que a prática do retiro em solidão propicia, e que eu penso que não é possível de outra forma, é a liberdade das distracções e do reforço da confusão das relações interpessoais, e portanto ao longo de um período de tempo, a nossa mente consegue-se abrir muito mais a um nível mais profundo do que aquilo que pensariamos possível.

Falamos muito sobre viver no presente, mas isto não deixa de ser um conceito para a maioria das pessoas. Em retiro, aprendemos na prática a como o fazer. De facto, tal ocorre naturalmente.

E qual é o benefício desse tipo de descoberta?

Nós não nos apercebemos do benefício completo enquanto ainda estamos no retiro. Todo o objectivo à volta do retiro é desenvolver a nossa mente e a nossa atenção para que quando vivemos a nossa vida do dia-a-dia estejamos mais presentes para nós, a nossa vida e para todos os que estão à nossa volta.

Podemos olhar para a prática do retiro como uma prática para desenvolver a compaixão pelos outros. Quando sabemos relaxar no sentido mais profundo de nós próprios, podemos estar disponíveis para os outros de uma forma que nunca seria possível antes, de uma forma que não é motivada pela nossa ambição e padrões de comportamento habituais, mas antes por aquilo que vemos que os outros precisam. Vemos a experiência de vida dos outros, do “seu” ponto de vista. Conseguimos sair de dentro de nós próprios e longe de esta ser uma prática anti-social, a prática do retiro na realidade permite-nos amar os outros de uma forma única muito forte.

A maioria de nós gostaria de poder ser mais gentil para com os outros, mais compassiva e contudo estamos tão embrenhados nos nossos próprios medos e esperanças, nas nossas emoções e nos nossos preconceitos, que simplesmente  não o conseguimos fazer…

Mas através da prática do retiro, aprendemos o caminho para a pessoa que ansiamos ser.

Link para a entrevista original

O valor do retiro em solidão (1/2)

Uma entrevista do professor de meditação no Shambhala Mountain Center (no Colorado, EUA) Reggie Ray, sobre o valor do retiro em solidão.

Quando eu falo sobre a minha própria experiência de fazer um retiro isolado durante 10 dias, a maior parte dos meus amigos ficam um pouco desconfiados… Porque é que as pessoas têm uma ideia tão negativa da possibilidade de se estar isolado em retiro?

Nós vivemos numa sociedade muito extrovertida. Ainda que na própria tradição Ocidental a prática da reclusão e do retiro sejam uma parte significativa da nossa própria cultura espirital – como nas práticas contemplativas do Catolicismo Romano, por exemplo – a maioria das pessoas desconhece que tais práticas fazem parte da nossa herança.

Creio que a outra razão é de que, não apenas as pessoas típicamente no Ocidente passem pouco ou nenhum tempo sozinhas, mas também muitos de nós temos um medo, ainda que subliminar, da solidão. Talvez uma das razões para algumas das ideias pré-concebidas sobre o retiro seja um profundo medo de estarmos sozinhos sem distracções, sem entretenimento, sem sequer trabalho e sem outras pessoas à nossa volta para constantemente confirmarem o nosso ego ou a nossa própria personalidade. Talvez muitos de nós sintam, ainda que mesmo inconscientemente, que a menos que estejamos a “produzir algo” externamente, de uma forma mais materialista, a nossa legitimidade como um ser humano pode ser posta em questão. E por isso não conseguimos ver como pode fazer sentido o conceito de retiro.

Quais são as qualidades essenciais de um retiro em isolamento? É possível fazê-lo sem qualquer experiência prévia de meditação?

Muitas das pessoas que chegam até nós no Shambhala Mountain Center já tiveram algum tipo de experiência em solidão. Sem qualquer conhecimento da prática do retiro ou mesmo da meditação, elas normalmente partem para a natureza em busca da solidão. Mas uma das coisas que descobrem quando se colocam nessas situações, é que levaram consigo todo o seu mundo atrás… As suas ansiedades, as suas emoções negativas, a sua velocidade mental e as suas preocupações estão tão presentes em solidão, como na vida do dia-a-dia. Aliás, elas até estão mais presentes. O problema é que estas pessoas não sabem o que fazer com a sua mente.

A prática do retiro combina a solidão com a prática da meditação, onde nós começamos a explorar a nossa mente. E o que descobrimos, através da meditação intensa em retiro, é que começamos a aceder à nossa mente de uma forma mais inédita e directa: a mente começa a abrandar, as nossas percepções sensoriais despertam, descobrimo-nos cada vez mais presentes na nossa própria vida e começamos a experimentar a nossa solidão de uma forma profunda e genuína.

O ambiente propicia a solidão, mas o ingrediente essencial do retiro é a prática da meditação – aquilo que efectivamente fazemos com a nossa mente quando estamos sós, porque simplesmente estar em solidão não é suficiente…

Falou sobre a prática do retiro no Catolicismo Romano também. Nesse caso existe também uma combinação de solidão com uma prática meditativa? Ou a meditação de forma estruturada é algo específico do Budismo?

Tanto o Budismo como o Catolicismo Romano possuem práticas estruturadas de trabalhar com atenção em si mesma, seja sobre a “forma” ou sobre a “não-forma”. O Padre Thomas Keating do Mosteiro Beneditino de Snowmass, Colorado ensina aquilo que ele chama de “oração focada”. O meu entendimento é de que esta prática é muito semelhante as práticas Budistas de mindfulness (“atenção plena”), focando a mente num dado ponto e depois treinando-a para estar presente e permitir que a sabedoria interior gradualmente se desenvolva a partir daí. Se olharmos para outras ordens contemplativas dentro do Catolicismo Romano, encontraremos outros tipos de prática semelhantes.

Talvez uma diferença importante entre o Budismo e o Cristianismo seja a de que na tradição Cristã, existe normalmente um objecto que é tema de contemplação, enquanto que no Budismo, especialmente nas suas práticas sobre a “não-forma”, aconteça uma abertura da mente “de” e “para” si própria; não se contempla um objecto ou figura em particular. Em última análise, procuramos apenas abrir a nossa mente e explorar as suas profundezas. Ora como no Cristianismo também se encontram estas práticas, não creio que exista tanto uma diferença em absoluto, mas apenas no enfâse dado a cada uma destas práticas.

(continua)

Link para a entrevista original