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Felicidade: Matthieu Ricard

(…) e está em harmonia com o mundo e consigo própria. Alguém que usufrua de uma experiência assim, como quando damos um passeio pela Natureza, não tem expectativas para além do próprio acto de caminhar. Ela simplesmente está, aqui e agora, liberta e aberta. 

Apenas por uns momentos, os pensamentos relativos ao passado são suprimidos, a mente não está igualmente carregada com planos sobre o futuro e o momento presente está liberto de quaisquer construções mentais. Este momento de pausa, do qual qualquer sentimento de urgência emocional desapareceu, é experienciado como um momento de paz profunda.

Para alguém que atingiu um objectivo, completou uma tarefa ou obteve uma vitória, a tensão que essa pessoa tinha acarretado consigo desaparece. O sentimento que se segue de relaxamento é sentido como um momento de calma profunda, livre de quaisquer expectativas ou medos.

Matthieu Ricard, Happiness: A Guide to Developing Life’s Most Important Skill

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A Mensagem dos Tibetanos – Tantra (2/2)

A Mensagem dos Tibetanos – Budismo (1/2)

Em 1963, pela primeira vez, o Dalai Lama permitiu que um Ocidental (Arnaud Desjardins) filmasse o centro do que era a tradição Tibetana. Estes dois filmes foram inicialmente transmitidos na televisão Francesa nos anos 60 e são um testumunho fantástico, revelando alguns dos maiores mestres Tibetanos da altura. Os filmes incluem imagens de Dilgo Khyentse Rinpoche, o Décimo-Sexto Karmapa, Dudjom Rinpoche, Ling Rinpoche, Chatral Rinpoche, Sakya Trizin, e os yogis Abo Rinpoche e Lopon Sonam Zangpo. 

Estes retratos de Mestres Tibetanos lendários não são apenas um registo histórico único, não apenas uma inpiração comovente para hoje e para o futuro, mas um extraordinário testemunho, um tesouro.” Sogyal Rinpoche.

Matthieu Ricard – A Arte da Meditação

Uma entrevista de 30m com Matthieu Ricard, sobre a importância da meditação no treino da nossa mente.

Genuíno bem estar

Os ensinamentos do Buda sobre mindfulness (“atenção plena”) apontam num sentido – compreensão e libertação do sofrimento. Apesar disso, existem certas recompensas ao longo do caminho: uma maior compaixão e uma consciência livre, são dois exemplos. E mesmo, arriscaria eu dizer, felicidade. Todos pretendemos ser felizes, mas como o monge Matthieu Ricard afirma: “Existe uma grande diferença entre aspiração e realização.” As “receitas de curto prazo” e as gratificações imediatas que eu penso que me vão fazer felizes no longo prazo, nunca o fazem, deixando-me com o coração vazio. A atenção plena liberta a verdade escondida sobre as desculpas e a confusão, iluminando o caminho para uma genuína satisfação.

Se eu apenas prestasse atenção…

Joan Duncan Oliver, “Do I Mind?”

Budismo: Religião ou Filosofia?

Tem havido uma grande discussão sobre se o Budismo é uma religião ou uma filosofia e a questão nunca foi verdadeiramente decidida. E nestes termos, esta é uma questão que apenas faz sentido no Ocidente. Apenas no Ocidente a filosofia é um ramo do conhecimento como a matemática ou a botânica, e apenas no Ocidente o filósofo é alguém que explica um conjunto de doutrinas durante o dia, mas depois quando chega a casa, vive exactamente como o seu advogado ou o seu dentista, sem que aquilo que ensina tenha o menor impacto na sua vida. Apenas no Ocidente é a religião, para uma grande maioria dos que têm fé, um pequeno compartimento da sua vida que apenas é aberto em certos dias, em períodos específicos ou em circunstâncias pré-determinadas.

Apesar de no Oriente também existirem professores de filosofia, lá um filósofo é um mestre espiritual que vive de acordo com aquilo que ensina, rodeado por discípulos que querem seguir o seu exemplo. Os seus ensinamentos nunca são baseados em pura curiosidade, dado que o seu valor reside apenas na sua concretização.

Deste ponto de vista, parece fazer pouco sentido discutir sobre se o Budismo se apresenta como uma filosofia ou uma religião. É um caminho, uma forma de salvação, aquela que levou o Buda ao “Despertar”; é um método, um meio de obter libertação através de um trabalho intenso da mente e do espírito.

André Mignot, Le Bouddha

O Monge e o Filósofo – Uma ciência da mente (2/2)

Jean-François Revel – Indo um pouco além das metáforas, que mecanismo é esse exactamente?

Matthieu Ricard – Para o podermos começar a ver em acção, primeiro precisamos de tentar parar o fluxo de pensamentos que nos inunda, ainda que apenas por um instante. Sem prolongarmos pensamentos passados e sem convidarmos pensamentos futuros, simplesmente permanecemos, ainda mesmo que fugazmente, atentos ao momento presente, livres de quaisquer pensamentos discursivos.

Pouco a pouco, conseguimos tornarmo-nos melhores a ficarmos um pouco mais naquele estado de atenção. Enquanto existirem ondas num lago, as suas águas não serão nítidas. Mas se as ondas pararem, a lama desce para o fundo do lago e a nitidez cristalina da água regressa. Da mesma forma, quando os pensamentos discursivos acalmam, a mente torna-se mais clara e é mais fácil descobrirmos a sua verdadeira natureza.

Depois torna-se necessário examinarmos a natureza destes pensamentos discursivos. Para o fazer, podemos até deliberadamente fazer despertar algumas emoções fortes em nós, talvez pensando em alguém que nos magoou, ou ao contrário, em alguém que desperta o nosso desejo. Deixamos essa emoção aparecer no campo da nossa consciência, e depois “tratamo-la” com a nossa percepção interna, alternando entre uma investigação analítica e uma contemplação pura. No início, essa emoção domina-nos e faz-nos obcecar nela. Regressa constantemente. Mas continuemos a examiná-la cuidadosamente. De onde é que ela obtém a sua aparente força? Ela não tem qualquer capacidade intrínseca para magoar, como algumas criaturas de carne e osso. Onde é que ela estava antes de ter aparecido? Quando ela aparece na nossa mente, tem alguma característica – uma localização, uma forma, uma côr? E quando ela deixa o espaço da nossa consciência, vai para algum sítio? Quanto mais a investigamos, mais aquele pensamento que nos parecia tão forte nos escapa; é impossível apanhá-lo ou identificá-lo.

Atingimos um estado de “não encontrado”, em que nos detemos nalguns instantes de contemplação. Isto é o que é normalmente é chamado de: “reconhecer o vazio dos pensamentos”. É um estado de simplicidade interior, de atenção nítida, despida de quaisquer conceitos. Quando entendemos que os pensamentos são apenas uma manifestação desse estado de consciência ou simplicidade interior, eles perdem a sua aparente solidez. Eventualmente, depois de um período extenso de prática persistente, o processo de libertação torna-se natural e assim que novos pensamentos surgem eles dissolvem-se a si mesmos, não mais perturbando ou dominando a nossa mente. Eles passam a demorar tanto tempo a aparecer como a desaparecer, como desenhos feitos na superfície da água com um dedo da nossa mão…

Jean-François Revel – O que me surpreende em toda essa forma de pensar é que tudo é descrito como se a realidade do mundo exterior, as coisas que nós fazemos, os outros seres humanos e o peso da circunstâncias não existissem de todo. Certamente existem momentos em que perigos reais genuinamente nos ameaçam. Ter medo dessas ameaças, ou querer livrarmo-nos delas e portanto ter uma atitude activamente hostil contra a nossa ameaça, quando a nossa vida está em perigo por exemplo, não é algo com que se possa lidar simplesmente gerindo os nossos pensamentos! A resposta correcta é tomar um qualquer tipo de acção exterior.

Matthieu Ricard – Numa dada situação, podemos reagir de várias formas, de acordo com o nosso estado interior. As acções nascem dos nossos pensamentos. Portanto precisamos de aprender a nos  libertarmos das nossas emoções…

Jean-François Revel – Sim, mas esses são casos muito marginais…

Matthieu Ricard – … para depois podermos usar essa mestria da mente no calor do momento. Normalmente usamos a expressão “alguém se controlou a si próprio” ou “perdeu completamente o controlo de si próprio”. Neste caso, o que estamos a discutir é sobre como tornar esse controlo mais total, mais estável, com a ajuda do conhecimento da natureza da nossa mente. Não significa de forma alguma agir de uma maneira apática ou indiferente, enquanto um assassino  mata uma família à frente dos nossos olhos. Significa apenas fazer o mínimo necessária para neutralizar o adversário sem nos deixarmos invadir pelo ódio, ou matando o agressor possuídos por um estado de mente dominado por um sentimento de vingança.

A mestria da mente é por isso fundamental.

Link ASA (português) para o livro: “O Monge e o Filósofo – O Budismo hoje”