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Jon Kabat-Zinn: A vida está a acontecer… agora

Sonnabend Lecture: Jon Kabat-Zinn

O que é que eu quero?

Quando nos recusamos a aceitar as coisas como elas são, talvez porque não queremos que elas sejam como são na realidade, ao tentarmos que uma situação ou uma relação sejam de uma dada forma, porque temos medo que se elas forem de forma diferente não satisfaçam as nossas necessidades, esquecemo-nos de que a maior parte do tempo… nós genuinamente nem sequer sabemos bem o que ė que nos satisfaria; apenas achamos que sabemos. 

Jon Kabat-Zinn, Coming to our Senses – Healing Ourselves and the World Through Mindfulness

O nosso corpo

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Quando correctamente cultivada, a nossa atenção pode discernir, contemplar, transcender e por isso libertar-nos das limitações dos nossos rotineiros padrões de pensamento, dos nossos rotineiros sentimentos, das nossas rotineiras relações e dos dos estados mentais e das emoções frequentemente turbulentas e destrutivas que os acompanham.

Tais hábitos são inevitavelmente condicionados pelo nosso passado, não apenas através da nossa herança genética, mas também através das nossas experiências de trauma, medo, falta de confiança ou ressentimento por injustiças ocorridas no passado. Mas independentemente de tudo isto, estes são hábitos que estreitam a nossa visão das coisas, distorcem o nosso entendimento e que se não forem cuidados, podem impedir o nosso crescimento pessoal e o nosso processo de cura. 

Para que possamos então reencontrar o nosso caminho, tanto individualmente como enquanto espécie, precisamos primeiro de voltar ao nosso corpo, onde os nossos sentimentos e aquilo a que chamamos mente, têm origem. O nosso corpo é aliás algo que nós normalmente ignoramos; podemos até praticamente nem o habitar, quanto mais cuidar dele e honrá-lo… Estranhamento o nosso corpo ė uma paisagem que simultaneamente nos é tanto familiar, como incrivelmente desconhecida. É um domínio que nós às vezes podemos temer ou até mesmo do qual não gostamos, dependendo do nosso passado e daquilo porque passamos ou tememos vir a passar. Outras vezes pode ser algo pelo qual nos sentimos profundamente seduzidos, obcecados com o seu tamanho, forma, peso ou aspecto, correndo o risco de cairmos numa inconsciente mais interminável auto-preocupação e mesmo narcisismo. 

Jon Kabat-Zinn, Coming to our Senses – Healing Ourselves and the World Through Mindfulness

Corpo e mente

Nos últimos 30 anos a medicina descobriu (a partir de um conjunto de pesquisas cientificas em campos que acabaram por ficar conhecidos por ‘medicina corpo & mente’, medicina comportamental, medicina psicossomática e medicina integrada) que o misterioso e dinâmico equilíbrio a que chamamos saúde envolve tanto o corpo como a mente (para usar uma forma de falar estranha e bizarra, que separa ambos os conceitos) e que pode ser melhorado pelo desenvolvimento de qualidades especificas como a atenção, de forma sustentada, restauradora e mesmo curativa.
De facto todos temos em nós, no nosso interior profundo, a capacidade de desenvolver uma dinâmica, vital e sustentada paz interior e bem-estar, assim como uma inteligência inata e multifacetada que vai para além do meramente conceptual. Quando mobilizamos e refinamos essa capacidade e lhe damos uso, tornamo-nos muito mais saudáveis fisica, emocional e espiritualmente. 
E muito mais felizes. Mesmo os nossos pensamentos se tornam mais claros e somos menos abalroados pelas tempestades que ocorrem na nossa mente…

Jon Kabat-Zinn, Coming to our Senses – Healing Ourselves and the World Through Mindfulness

Será que qualquer pessoa consegue meditar?

Suspeito que muitas pessoas me colocam esta questão porque acham que toda a gente consegue meditar… menos elas. Elas querem ser reasseguradas que não estão sós, que há pelo menos mais algumas pessoas com quem se podem identificar, aquelas pobres almas que nasceram incapazes de meditar. Mas não é assim tão simples…

Pensar que se é incapaz de meditar é equivalente a pensar que se é incapaz de respirar, concentrar ou relaxar. Quase toda a gente consegue respirar facilmente. E nas circunstâncias certas, a maioria das pessoas também se consegue concentrar e relaxar.

As pessoas frequentemente confundem a meditação com o relaxamento ou algum outro estado especial que se tem de atingir. Quando se tenta uma ou duas vezes e de facto não se chega a nenhum estado em especial, então normalmente as pessoas pensam que simplesmente… não conseguem meditar.

Mas a meditação não tem que ver com sentir algo em específico.

Tem que ver com simplesmente sentir… o que se sente. Não se pretende que esvaziemos a nossa mente ou que esvaziemos a nossa mente, ainda que a tranquilidade que acontece na meditação possa ser cultivada sistematicamente. Acima de tudo, a meditação implica deixarmos a mente ser como ela é, e sabermos algo sobre como ela está em dado momento. Não é pretende que cheguemos a algum sítio em especial, mas apenas permitir-mo-nos estar onde já estamos. Caso não consigamos entender estes argumentos, então pensaremos que somos incapazes de meditar. Mas isso são simplesmente mais pensamentos, e neste caso em específico, pensamentos incorrectos.

É verdade que a meditação requer energia e um compromisso com a nossa prática. Mas então, não seria mais correcto dizermos: “Eu não vou continuar a tentar” em vez de “Eu não consigo”? Qualquer pessoa se consegue sentar e observar a sua respiração ou observar a sua mente. E nem sequer precisamos de estar sentados. Podemos andar, estar simplesmente de pé, deitados, apenas numa perna, a correr ou a tomar banho. Mas permanecer em meditação durante pelo menos 5 minutos requer intencionalidade. Integrar esta prática na nossa vida requer alguma disciplina. Por isso quando as pessoas dizem que não conseguem meditar, aquilo que elas realmente querem dizer é que não planearão tempo para isso, ou que quando tentam, não gostam do que acontece. Não é o que elas esperavam que fosse. Não cumpre as suas expectativas.

Por isso talvez pudessem tentar de novo, desta vez deixando cair as suas expectativas e simplesmente estando atentas.

Jon Kabat-Zinn, “Wherever you go, there you are

Meditação: controlo da mente?

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É difícil falar da intemporal beleza e riqueza do momento presente quando tudo acontece tão rapidamente hoje em dia. Mas quanto mais rapidamente as coisas acontecem, mais importante se torna habitarmos o intemporal. Caso contrário, podemos perder o contacto com dimensões da nossa humanidade que fazem toda a diferença entre a felicidade e a infelicidade, entre a sabedoria e a ignorância, entre o bem-estar e a confusão constante que acontece na nossa mente, no nosso corpo e no nosso mundo, e a que nos iremos referir como um ‘mal-estar’. Porque este nosso descontentamento é mesmo uma doença, apesar de não nos parecer. Às vezes referimo-nos coloquialmente a este tipo de sentimentos e condições, que são um tipo de ‘descontentamento’, como stress. E estes sentimentos normalmente são dolorosos. Pesam-nos. E implicam sempre um sentimento latente de insatisfação.
(…)
Em 1979 fundei uma Clinica de Redução de Stress. Olhando agora para trás no tempo, penso: “Que stress?” tanto o nosso mundo mudou, tanto se acelerou o ritmo das nossas vidas e tantos perigos aparecem hoje em dia à nossa porta.
(…)
E precisamente o que pretendemos desenvolver na nossa Clínica é permitir que (…) não daqui a muitos anos se finalmente obtenha um sentimento de ter atingido algo de importante, se tenha saboreado a beleza intemporal da atenção meditativa e de tudo o que ela tem para oferecer (levando-nos em ultima análise a levar uma vida muito mais tranquila e satisfatória), mas sim a acedermos a essa intemporalidade neste mesmo instante – porque ela já nos está imediatamente acessível, mesmo debaixo dos nosso nariz, por assim dizer – e ao fazê-lo, ganhar acesso aquelas dimensões do possível que só nos estão neste momento inacessíveis porque nos recusamos a estar presentes, porque estamos seduzidos, entretidos ou assustados com o futuro ou o passado, levados por um conjunto de eventos e pelos padrões típicos das nossas reacções e da nossa dormência, atendendo aquilo a que classificamos de “urgente”, enquanto perdemos o contacto com o que genuinamente é importante, de facto vital para o nosso bem estar, para a nossa sanidade e mesmo para a nossa sobrevivência.

Nós fizemos da nossa absorção constante pelo passado e pelo futuro um hábito tão forte que, a maior parte do tempo, não temos qualquer noção do momento presente. Como tal, podemos sentir que temos muito pouco controlo, se é que algum, sobre os altos e baixos das nossas vidas e das nossas próprias mentes.

Jon Kabat-Zinn, Coming to our Senses – Healing Ourselves and the World Through Mindfulness