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Recordar a impermanência

“Quando a Terra perecer, daqui a uns 5 biliões de anos, existirão outros mundos e outras galáxias a nascer…

E aí nada se saberá sobre um sítio outrora chamado Terra…”

Carl Sagan

“Como é que se esquece alguém que se ama?” – Um elogio à impermanência

 

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece?

Devagar.

É preciso esquecer devagar.

Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.

O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma.

A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.

Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in “Último Volume

Contemplemos o fenómeno da impermanência durante 30 segundos

Um elogio à impermanência

Não podemos entrar no mesmo rio duas vezes.

Heráclito de Éfeso

Contemplar a impermanência

A impermanência é escolhida como um tópico de meditação no Budismo porque, apesar de a podermos entender intelectualmente, certamente não nos comportamos como se tivéssemos integrado este conhecimento. Uma combinação de análise  e concentração sobre este tópico traz-nos este conhecimento à vida, para que possamos apreciar o valor de cada momento da nossa experiência.

Dalai Lama,  “Four Takes on Impermanence”

Surge e passa

Quer seja agradável ou desagradável, quer esteja em bruto ou seja súbtil, cada sensação partilha uma mesma característica: ela surge e passa, surge e passa. É este aparecimento e subsequente desaparecimento que nós temos de experimentar através da nossa prática, não apenas aceitá-lo como verdade porque o Buda assim disse, não apenas aceitá-lo como verdade porque intelectualmente  nos parece fazer sentido. Temos de experimentar a natureza destas sensações e perceber o seu fluxo.

—S.N. Goenka, “Finding Sense in Sensation”

Respiração

Algumas pessoas praticam durante toda a sua vida simplesmente prestando atenção à sua respiração. Tudo o que é verdade sobre alguma coisa, é também verdade sobre a respiração: é impermanente, ela surge e depois termina. Contudo, se não respirássemos, ser-nos-ia desconfortável; até que inspirássemos e aí sentir-nos-iamos confortáveis de novo.

Mas se nos apegarmos à nossa inspiração, deixamos de estar confortáveis e temos de expirar novamente.

A mudança, a mudança em todos os momentos.

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