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Dalai Lama – Autobiografia Espiritual: A análise do espírito, preliminar da prática espiritual

Para nos livrarmos do sofrimento, é preciso compreender o que se passa antes do sofrimento. Na verdade, não há nada que surja sem causas nem condições. Importa reconhecer as causas que aumentam o sofrimento ou o diminuem. Faz parte da análise do espírito, preliminar indispensável à prática espiritual.

O espírito é sujeito às pressões das circunstâncias, flutua com elas e reage ao impacto das sensações. O progresso material e o desenvolvimento do nível de vida melhoram o conforto e a saúde, mas não conduzem a uma transformação do espírito, a única susceptível de proporcionar uma paz duradoura. A felicidade profunda, ao contrário do que acontece com as satisfações passageiras, é de natureza espiritual. Depende da felicidade do outro e baseia-se no amor e na ternura. Seria errado pensar que ser feliz consiste em se apropriar do melhor em detrimento dos outros. A falta de altruísmo, que causa perturbações e desordens familiares, provoca a solidão. Procuremos não ser excessivamente voltados para o exterior…

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A chave da felicidade reside na força de espírito, na serenidade interior…

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Dalai Lama – Autobiografia Espiritual: Educar a nossa vida emocional

O eu é a raíz dos venenos mentais. O nosso espírito fabrica, projecta e apõe conceitos às pessoas e aos objectos. A fixação egocêntrica reforça as qualidades ou os defeitos que emprestamos aos outros. Daí resulta uma solidificação do corte entre eu e não-eu, meu e não-meu. As coisas, que apreendemos como separadas, estão na realidade ligadas. Mas o nosso eu separa-as. Enquanto nos mantivermos ignorantes e não sentirmos a ausência da realidade do eu, o nosso espírito cresce em solidez. Reconhecer a ausência de existência inerente do meu é um antídoto eficaz para a fixação egocêntrica e é o objecto do ensinamento sobre a via do Buda.

Sob o efeito da atracção e do desejo, o espírito funde-se e prende-se ao objecto da sua apreensão. O desejo de posse é muito forte, cristaliza o apego ao eu e ao meu. Sentimos repulsa pelo que nos prejudica e esta repulsa vai transformar-se em ódio, depois em desordem do espírito, em palavras injuriosas, em violência. Estas emoções negativas prejudicam a saúde. Estudos médicos demonstraram que as pessoas, que na linguagem da vida corrente, mais utilizam as palavras eu ou meu, estão mais sujeitas do que outras a doenças cardíacas. Na raíz das emoções negativas, encontra-se portanto o eu e a crença na solidez das coisas. Devemos esforçar-nos por dissipar esta crença a níveis cada vez mais subtis.

Educar a nossa vida emocional representa um trabalho de várias dezenas de anos para remediar os sentimentos negativos que se tornaram no estado normal do nosso espírito. Na verdade, nunca procurámos saber que somos realmente…

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Dalai Lama – Autobiografia Espiritual: Verdade Relativa e Absoluta

A nossa percepção do tempo assenta igualmente numa apreensão irrónea da realidade. De facto, o que é o passado? O passado não é uma realidade, é apenas um conceito. O futuro corresponde a projecções, antecipações que também não possuem realidade. O passado já aconteceu, o futuro ainda não. Estas noções afectam-nos como realidades, sem no entanto possuírem uma substância. O presente é a verdade que vivemos aqui e agora, mas é uma verdade inapreensível que não perdura. Encontramo-nos numa situação paradoxal em que o presente constitui uma fronteira, um limite entre um passado e um futuro sem realidade concreta. O presente é este momento inapreensível, entre o que já não é e o que ainda não aconteceu.

Estas noções que tomamos como «realidade» são puras construções intelectuais que não abarcam uma realidade independente, existindo em si. Segundo o Buda, os fenómenos apreendidos só existem do ponto de vista da sua designação, nomes e conceitos que lhes atribuímos. O funcionamento dos fenómenos não revela uma entidade palpável que lhes seja própria. Podemos compará-los a uma miragem. Quanto mais nos aproximamos, mais ela se afasta e desaparece. Do mesmo modo, perante o espírito que os analisa, os fenómenos desvanecem-se.

Importa, portanto, distinguir duas verdades: uma verdade relativa, que diz respeito à aparência dos fenómenos, à sua emergência, à sua manifestação e cessação; e uma verdade última, que abarca a ausência de realidade própria dos fenómenos. Ao afirmar que os fenómenos são vazios de existência intrínseca, não declaramos a sua não existência, mas a sua interdependência, a sua ausência de realidade concreta. E a vacuidade dos fenómenos, em vez de ser uma construção mental ou um conceito, corresponde à própria realidade do mundo fenomenal.

O Buda não nega que as coisas apareçam, mas estabelece a união entre as aparências e a vacuidade. Assim, a flor existe, as suas formas e as suas características inscrevem-se no nosso espírito. Mas a sua natureza é despida de existência intrínseca.

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Dalai Lama – Autobiografia Espiritual: Impermanência e interdependência

O Budismo propóe um método que nos tornará melhores se reflectirmos sobre a verdadeira natureza das coisas, sem nos deixarmos enganar pelas aparências. Os fenómenos, que se manifestam ante as nossas faculdades de percepção, não possuem uma realidade última. Consideremos o exemplo de uma montanha. Parece-nos igual, hoje, ao que era ontem. Formada há milhares de anos, representa uma continuidade no mundo dos fenómenos. Mesmo constatando uma estabilidade relativa na sua aparência ao nível mais grosseiro, somos forçados a admitir que cada uma das suas partículas, a um nível muito fino, se transforma de instante a instante. A mudança, no plano infinitesimal, é acompanhada no nosso espírito por uma aparência de continuidade. Ora, a continuidade assim entendida é ilusória. Na verdade, nada perdura de forma idêntica, não dois instantes consecutivos que sejam análogos.

Depois do exemplo da montanha, consideremos o da flor, cuja fragilidade e carácter efémero são evidentes. A flor, hoje desabrochada, foi semente, depois botão. Estas mudanças de estado ilustram a impermanência subitl de cada instante que é a verdadeira natureza da flor, votada a uma destruição rápida. Quer se trate de uma montanha ou de uma flor, teremos de nos habituar a compreender que, no instante em que se produz um fenómeno, ele traz em si a causa do seu próprio fim.

A impermanência dos fenómenos depende de causas e condições exteriores. Dizer que todas as coisas são interdependentes significa que não têm existência inerente. O próprio potencial de transformação, existente nos fenómenos, assinala a reciprocidade fundamental da vida.

Poderemos determinar que uma entidade «flor» existe em si? A resposta é não. A flor é tão só uma colecção de características, forma, cor e perfume, mas a flor não existe independentemente das suas aparências.

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Dalai Lama – Autobiografia Espiritual: Gosto do sorriso que é próprio do ser humano

Pensar que a compaixão, a razão e a paciência são benéficas não basta para as desenvolver. As dificuldades constituem uma oportunidade para as pôr em prática. Quem poderá suscitar tais ocasiões? Não os nossos amigos concerteza, mas antes os nossos inimigos, pois são eles que nos causam mais problemas. De tal modo que, se queremos realmente progredir, devemos considerar que os nossos inimigos são os nossos melhores mestres.

Para quem tenha em elevada estima o amor e a compaixão, a prática da tolerância é essencial e necessita de um inimigo. Portanto, devemos estar reconhecidos aos nosssos inimigos por serem eles que mais nos ajudam a criar um espírito sereno! A raiva e o ódio são os verdadeiros inimigos que importa enfrentar e aniquilar, não os “inimigos” que surgem de forma intermitente na nossa vida.

Obviamente, é natural e justo que todos nós queiramos ter amigos. Acontece-me muitas vezes dizer, gracejando, que um verdadeiro egoísta deve ser altruísta! Devemos cuidar dos outros, do seu bem-estar, ajudá-los, servi-los, procurar ainda mais amigos e provocar o desabrochamento de mais sorrisos. Pelo contrário, menosprezando a felicidade dos outros, perderemos a longo prazo. A amizade nasce das querelas, da raiva, da inveja e da competição desenfreada? Não creio.

Só o verdadeiro afecto produz verdadeiros amigos.

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Dalai Lama – Autobiografia Espiritual: A força da compaixão

A raiva e o ódio são os principais obstáculos à compaixão. Estas emoções poderosas têm a capacidade de submergir completamente o espírito, embora possam ser controladas. Se não as dominarmos, assediar-nos-ão constantemente, impedindo-nos o acesso à serenidade que caracteriza um espírito afectuoso.

É importante que comecemos por nos interrogar se, sim ou não, a raiva tem algum valor. Por vezes, quando o desânimo se apodera de nós no caso de uma situação difícil, a raiva parece fornecer um complemento de energia, confiança e determinação. É então que urge examinar cuidadosamente o nosso estado de espírito. É verdade que a raiva confere uma certa energia, mas, observando-a, descobrimos que é cega. É impossível determinar se o resultado será positivo ou negativo, porque a raiva eclipa a melhor parte do cérebro, o raciocínio. É por isso que a energia da raiva está sujeita a cautela. Pode inspirar uma conduta altamente destruidora e infeliz.

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Podemos contudo desenvolver uma energia igualmente forte, mas muito melhor controlada do que a raiva, para enfrentar circunstâncias penosas. Esta energia controlada provém de uma atitude compassiva e ao mesmo tempo da razão, aliada à paciência. São antídotos muito eficazes contra a raiva. Infelizmente, muitas pessoas menosprezam estas qualidades, confundido-as com fraqueza. Afirmo, pelo contrário, que são verdadeiros sinais de força interior. A compaixão é por natureza amável, serena e doce, embora seja muito poderosa. As pessoas que perdem facilmente a paciência são confusas e instáveis. É por isso que, aos meus olhos, um acesso de raiva é um sinal infalível de fraqueza.

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Importa compreender que, mesmo quando os adversários parecem prejudicar-nos, a sua actividade destruidora voltar-se-á, em última instância, contra eles. A fim de travar o impulso egoísta que conduz a exercer represálias, recordemos o desejo de praticar a compaixão e a nossa responsabilidade de ajudar os outros a prevenir o sofrimento, resultante das nossas próprias acções. Medidas calmamente escolhidas serão as mais eficazes, melhor adaptadas e mais poderosas, enquanto as represálias, assentes na energia cega da raiva, raramente atingem o seu objectivo.

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