Arquivo de Março, 2010

Meditação para iniciantes

Ao ensinar meditação nas prisões, Barry Evans encontrou o essencial da sua prática quando foi forçado a deixar de fora uma grande parte do que fazia…

Os meus ensinamentos a meditadores iniciantes estão a tornar-se cada vez mais minimalistas. Por estes dias, tornaram-se próximo de algo como: “Sentem-se tranquilamente e notem o que vai acontecendo.

Antigamente levava mais tempo – quando eu era professor de meditação numa Sangha em Montain View, California, passava 30m a 40m a dizer aos iniciantes como se sentarem, como respirarem – já para não dizer, como entrar e sair da sala, como colocar uma questão e até mesmo o que poderiam esperar!

Parte da minha abordagem bem mais rápida hoje em dia é ditada por razões logísticas. Na prisão onde três de nós alternadamente ensinamos num programa de meditação para homens, estamos quase sempre com reclusos que nunca meditaram antes e temos o nosso tempo muito limitado. Quero por isso dar-lhes um gosto da essência da meditação. E quando eu estou a liderar as nossas sessões semanais, parecem sempre aparecer caras novas mesmo quando eu estou prestes a tocar o sino, portanto basicamente digo-lhes um muito rápido: “Bem vindo… tira os sapatos por favor… cadeira ou almofada? … Ok então, porque é que não te sentas e notas simplesmente aquilo que for acontecendo nos próximos 30m?… Obrigado.

É só isso? Então e os olhos abertos? A cabeça inclinada a 45º? Os mudras cósmicos, os polegares praticamente sem se tocarem? A coluna o mais direita possível? A língua a tocar o paláto? O estar consciente sobre a respiração? O deixar os pensamentos passarem sem pararem para uma pequena conversa?

Tudo isto é óptimo para ser testado quando alguém tomou a decisão de praticar, mas para iniciantes? Prefiro dar-lhes um grande campo onde passam experimentar, seguindo a minha convicção profunda de que não existe forma errada de o fazer – ao contrário de praticamente tudo o resto na vida! Durante o meu dia-a-dia, eu normalmente tenho um comentário editorial constante semelhante a um: “Bom trabalho João… ups, fizeste asneira aqui… bem, estás a trabalhar muito bem! … Eh pá, o dia já passou e não fiz nada!” Contudo a meditação vai e vem, o antídoto para uma existência orientada em função de um objectivo: eu medito porque eu medito, e na maior parte das vezes, eu não tento melhorar. Simplesmente é o que é.

O meu problema com instruções detalhadas para meditação é que, pela sua própria natureza, as instruções implicam que existem boas e más maneiras de meditar. Diz-se: “Isto é o que deves fazer… Isto está certo, isto errado…”. Instruções levam à criação de objectivos, tal como “na vida real”.

Questiono-me se será por isso que tantas pessoas tentam meditar e desistem, sentindo que de alguma forma, falharam? Na minha antiga Sangha, estimamos que de entre 5 ou 6 iniciantes que vinham às sessões de meditação (seguidas de um período para permanecermos sentados), apenas viamos uma delas de novo. Para a grande maioria, aquela primeira vez era suficiente. Quantas vezes é que eu já ouvi algo como: “Sim, eu tentei meditar uma vez, mas aquilo não era para mim… Simplesmente não conseguia meditar bem… A minha mente não se acalmava!

Se um iniciante de facto tem questões ou preocupações, eu encorajo-os primeiro a tentar e a colocar as questões depois. Alguém que se senta pela primeira vez pode aprender mais sobre meditação em 30m de prática, do que passando esse tempo a discutir mesmo que com um meditador de longo prazo.

Porque a meditação não é sobre seguir indicações ao longo de uma auto-estrada mental: é um percurso fora de estrada

Texto da Revista Tricycle, que podem encontrar aqui

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Palavras sábias

Invictus, #46664

Recomendo vivamente (claramente filme para os Oscares, achava eu! : )

Genuinamente inspirador“, Rolling Stone

Morgan Freeman nasceu para interpretar Mandela“, Rolling Stone

Matt Damon tem um dos melhores papéis da sua carreira“, Back Stage

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Acerca do percurso que Mandela foi capaz de percorrer uma vez libertado e do que é um verdadeiro exemplo de compaixão posta em acção…

I was thinking how a man could spend thirty years in prison, and come out and forgive the men who did it to him…

As 5 facetas de Matthieu

PERCURSO DE VIDA Matthieu Ricard é um monge budista, autor, fotógrafo e tradutor para o Dalai Lama, que tem estudado o Budismo e desenvolvido o seu trabalho humanitário nos Himalaias ao longo dos últimos 40 anos. Tendo crescido na elite da sociedade parisiense entre os amigos do seu pai (Jean-François Revel, um reconhecido filósofo francês) e da sua mãe (Yahne Le Toumelin, uma artista plástica) Matthieu concluiu o seu doutoramento em Biologia Molecular no Institut Pasteur, juntamente com o Prémio Nobel Francois Jacob. Nessa altura ele abandonou no entanto aquilo que muitos consideraram uma brilhante carreira científica em biologia molecular, para estudar junto de alguns dos grandes mestres espirituais do Tibete, nomeadamente dois dos últimos Mestres Tibetanos a viverem no país antes da invasão Chinesa (Kyapje Kangyur Rinpoche, 1897-1975 e Dilgo Khyentse Rinpoche, 1910-1991).

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Happiness: A Guide to Developing Life's Most Important Skill

O AUTOR Matthieu é também autor de vários livros, entre os quais “The Monk and the Philosopher” onde dialoga com o seu pai, um intelectual ateu que nunca tinha dedicada muita atenção nem ao Budismo, nem a qualquer outra religião. Mais do que o reencontro entre pai e filho, o livro é uma jornada sobre os caminhos comuns através dos quais a Filosofia e o Budismo descrevem a busca do Homem de um significado para a vida. Mas Matthieu foi também autor de “The Quantum and the Lotus“, onde de novo dialoga desta vez com o cientista astrofísico Trinh Xuan Thuan, sobre os pontos comuns entre o Budismo e a Ciência. É também autor do sucesso: “Happiness: A Guide to Developing Life’s Most Important Skill” onde Matthieu dá uma resposta de inspiração Budista à procura pela felicidade que há milénios persegue filósofos, escritores e artistas… Finalmente escreveu ainda “The Art of Meditation“, uma introdução simples à psicologia Budista,“provavelmente uma das coisas mais inteligentes que este Planeta conseguiu descobrir” de acordo com o Sunday Times. Os seus livros foram já traduzidos para mais de 20 linguas.

Motionless Journey: From a Hermitage in the Himalayas

O FOTÓGRAFO Vivendo próximo de vários dos mais marcantes Mestres Tibetanos do último século e dada a sua paixão pela fotografia, Matthieu foi capaz de captar imagens de paisagens, Mestres e habitantes das regiões isoladas dos Himalaias que levaram um dos mais importantes fotógrafos do século XX, Henri Cartier-Bresson, a afirmar sobre as suas imagens: “A vida espiritual de Matthieu e a sua câmara são apenas uma e é daí que surgem as suas fotografias, efémeras, contudo eternas.” Editou também vários livros de fotografia entre os quais “Journey to Enlightenment“, “Tibet. An Inner Journey“,”Motionless Journey” e “Bhutan. Land of Serenity“. O seu trabalho esteve já exposto em Nova Iorque (RMA Museum, Aperture Gallery), Paris, Perpignan (Visa pour l’image), Winthertur, Estocolmo e Hong Kong.

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Reunião Mind & Life Institute

O CIENTISTA Desde 1989, Matthieu tem também servido como intérprete para o Dalai Lama, sendo ainda membro do Mind & Life Institute, uma organização dedicada à pesquisa conjunta entre cientistas e Mestres Budistas e meditadores, nomeadamente sobre os efeitos do treino da mentre e da meditação sobre o cérebro, levados a cabo em várias Universidades nos EUA (Madison, Princeton e Berkeley), na Europa (em Zurique) e ainda em Hong Kong.

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Jovem aprendiz no Mosteiro de Shechen, Nepal

O HUMANITÁRIO Na última faceta desta incrível personagem, Matthieu leva à prática todo o discurso Budista, desenvolvendo um trabalho humanitário suportado pelas receitas dos seus livros e de muito do seu tempo em actividades de angariação de fundos, que depois dedica aos cerca de 40 projectos humanitários que desenvolve na região dos Himalais (agregados no projecto Karuna-Shechen), assim como em projectos para a preservação da herança cultural do Tibete (Comunidade Shechen).

The Devotion of Matthieu Ricard

A apenas dois dias da vinda de Matthieu Ricard ao Porto, aqui fica um trailer do filme “The Devotion of Matthieu Ricard“, um fantástico relato do seu percurso de vida, filmado na Europa, no Tibete, na Índia e no Nepal e ainda com fotografias do próprio Matthieu.

O filme retrata o dia-a-dia de Matthieu e o trabalho por ele desenvolvido para cumprir o legado de um dos seus Mestres, Dilgo Khyentse Rinpoche, assim como o seu papel enquanto tradutor do Dalai Lama e ainda a sua participação na Europa em pesquisas sobre a relação entre as actividades contemplativas e a ciência.

A não perder!

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Disponível aqui.

A pessoa mais feliz do mundo?

Matthieu, o homem mais feliz do mundo?

Isto na verdade é uma brincadeira… Claro que é melhor do que ser chamado a pessoa mais infeliz do mundo, mas esta afirmação não é baseada em fundamentos científicos…

Quando a história foi publicada em vários jornais, eu tentei fazer um esclarecimento, mas em vão. Pedi desculpa aos meus colegas cientistas e agora tento levar esta história com humor. Quando me perguntam sobre este tema, eu respondo que qualquer pessoa pode ser a pessoa mais feliz do mundo, desde que procure a sua felicidade no local certo. A felicidade autêntica pode apenas vir de um desenvolvimento de longo prazo da sabedoria, do altruísmo e da compaixão e da irradicação completa de toxinas mentais como o ódio, o apego e a ignorância.

Há alguns anos atrás, a cadeira de televisão australiana ABC fez um documentário sobre felicidade, em que eu participei. A dada altura, o jornalista disse: “Aqui está talvez a pessoa mais feliz do mundo.” As coisas mantiveram-se calmas durante uns tempos, mas uns anos mais tarde o jornal inglês “The Independent” publicou na sua capa uma história em que me apelidavam de “A pessoa mais feliz do mundo“. A partir daí, a situação perdeu o controlo…

O jornalista tinha baseado a sua história no facto de eu estar a participar há vários anos em algumas pesquisas científicas em neurociência em laboratórios nos EUA, em particular o de David Richardson na Universidade de Maddison, no Wisconsin. Os cientistas concluiram que quando meditadores com muitos anos de treino meditavam sobre compaixão, a actividade em algumas zonas do cérebro aumentava numa magnitude que nunca havia sido descrita em neurociência. Algumas destas zonas que se demonstraram mais activas eram conhecidas por estarem relacionadas com emoções positivas. Mais de quinze destes meditadores “de longo prazo” apresentaram resultados semelhantes, mas eu por acaso fui o primeiro a participar nos testes. E é tudo.

in Matthieu Ricard, blog

Monges budistas voadores

A fotografia abaixo correu já meio mundo, com muitos a pensarem que era na realidade uma manipulação em Photoshop de vários fotografias a monges budistas em diferentes posições… Será um único monge a dar um salto de 7m?

Monges Budistas do Mosteiro Shechen, Nepal

Na realidade não é. É apenas uma única foto, tirada sem qualquer sobreposição, de monges tibetanos e butaneses a prepararem-se para uma dança tibetana sagrada chamada “Danças dos Heróis”…

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O fotógrafo?

Matthieu Ricard.